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ENTRE O ACOLHIMENTO E O DEIXAR A HISTÓRIA SEGUIR O SEU PERCURSO

Ressano Garcia pode ser um espaço de encontros e de interesses e alguns deles em conflito. Por exemplo, há um interesse por parte dos Estados, através da polícia, em controlar o fluxo migratório e a atividade ilícita junto às fronteiras. Por outro lado, os próprios Estados não têm meios, inclusive recursos humanos, suficientes para fazer esse controlo. Outras vezes, a própria legislação é de tal modo ambígua que deixa margem para interpretações “ad hoc” por parte dos agentes.

RossanoEssa margem abre brechas para a informalidade e espaço para negociação: essa possibilidade não só permite, como consequência, flexibilizar o sistema, mas também permite a arbitrariedade por parte das autoridades.
Muitos migrantes, inclusive comerciantes – de todo o tipo –, aproveitam ou dessas aberturas que o sistema deixa ou da exiguidade dos agentes, para seguirem os seus interesses. Essa possibilidade de poder negociar com o sistema abre espaço para a criatividade e também para abusos que podem lesar a dignidade das pessoas, incluindo a prática de crimes.
Que margem pode existir num ambiente de conflitos, arbitrariedade e abusos, apesar da criatividade, imaginação e resistência?
Uma das respostas pode estar no “espaço de acolhimento” que as missionárias scalabrinianas introduziram em Ressano Garcia.
Mais do que um trabalho, trata-se de facto de um “experimento” que combina serviço de acolhimento ao migrante e, ao mesmo tempo, de trabalho com as autoridades.
Presentes desde o início dos anos 90, quando terminou a cruel guerra civil que assolou Moçambique por mais de uma década, as irmãs fizeram de Ressano Garcia o ponto principal da sua atividade.
Assim foi criada a Casa da Acolhida. Concebida como um espaço de passagem e de acolhimento, ela se tornou uma espécie de estação onde transeuntes eRossano Casa de Acolhimento viajantes param para recuperar forças, repensar o trajeto e, sobretudo, para atualizar o sentido que dão aos seus percursos.
Passam por aquela Casa, vendedores ambulantes, crianças e mulheres supostamente vítimas de tráfico de pessoas, deportados, estudantes, migrantes – na sua maioria adolescentes e jovens – que tentam ir para África do Sul. Vêm das províncias do sul e do norte de Moçambique que chegam à zona da fronteira de Ressano Garcia em busca de trabalho.
Um dos trabalhos que as irmãs ali desenvolvem é o de ajudar os migrantes a tratarem os seus documentos, desde o Bilhete de Identidade (BI) até o Passaporte. Essa atividade, aparentemente banal no meio de tantas necessidades, condiz com o modelo que concebe a “migração-solução” em vez de “migração-problema”. Com os documentos em dia, passaporte e BI, os migrantes não só aumentam a possibilidade de escolha como também podem fazer planos, enquanto migrantes, de médio e longo prazo, além de fortalecer o processo de reconstrução do seu quotidiano. Essa reconstrução implica ultrapassar uma série de barreiras ou fronteiras. Uma delas é, evidentemente, a barreira burocrática.
Nesse sentido, Ressano Garcia, é uma fronteira, mas dentro dela existem muitas outras fronteiras. Mais do que uma vila minúscula ou uma simples fronteira, Rossano Garcia é uma experiência de mobilidade.

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